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Dia 02 - A selva e a torre de pedra. E os sapos cururus

Por: Honda



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Dia 2

Trajeto: Campos do Jordão – Serra da Mantiqueira – Presidente Epitácio

Distância: 816 km

Piso: asfalto, terra leve e mato


A selva e a torre de pedra. E os sapos cururus

No trecho mais longo da viagem, uma passada pela capital paulista, um off-road diante do pôr-do-sol, o coaxar do anfíbio e uma esticada às barbas de Mato Grosso do Sul

Entrar em São Paulo, pegar a marginal Tietê, sair de São Paulo. A maior cidade do Brasil apenas como ponto de passagem, apenas como tentação  que salta aos sentidos de um viajante com seu caos, sua imensidão, seus cheiros, seu aconchego. Para paulistanos acostumados a se envergonhar com seu rio, passar pela cidade e se mandar é uma espécie de vingança, sabe-se lá contra quem. Hoje a viagem Pro Outro Lado da América, depois de largar da marina do Engenho, em Paraty, e subir aos arredores de Campos do Jordão, desceu a serra da Mantiqueira e cruzou São Paulo apenas para seguir viagem.

Depois de ziguezaguear pelas pistas local e expressa da marginal, a viagem rumou forte para o oeste. Em um só tiro, todo o estado de São Paulo ficou para trás. Sorocaba, Assis, Bofete, Ourinhos, Porangaba, Santa Cruz do Rio Pardo, Palmital, Torre de Pedra, Rancharia, Caiuá... Foram 12 horas e mais de 800 quilômetros de Carvalho Pinto, Castelo Branco e Raposo Tavares até desligar os carros diante do rio Paraná, em Presidente Epitácio, último rincão paulista antes do Mato Grosso do Sul.

Em uma primeira leitura, pode parecer um dia monótono. Mas viagens on the road quase nunca decepcionam. Sempre tem uma pedra no meio do caminho, sempre tem o prazer de dirigir, sempre tem uma pessoa que desanda a contar histórias, sempre tem a luz perfeita. Sempre ou quase sempre. Hoje a pedra no caminho foi uma elevação rochosa de 75 metros cravada na zona rural da já citada Torre de Pedra. Para chegar lá e assistir de camarote ao pôr-do-sol, foi preciso subir uma montanha nunca antes trafegada. Mas antes de desvelar o highlight do dia, voltemos para a alvorada.

Um café da manhã de cinema no hotel Botanique despertou Amyr Klink e companhia. Era para ser no quarto, como manda o figurino deste hotel nas alturas da Mantiqueira. Mas resolvemos tomar o desejum todos juntos em uma mesa do lado de fora do restaurante, com uma vista que todo olho quer ver. Estava programado um papo com Fernanda Ralston Semler, proprietária e idealizadora do Botanique e Ricardo Semler, empresário e escritor – entre seus livros, o best-seller Virando a Própria Mesa. Os dois já haviam se conhecido em um programa na rádio Eldorado, duas décadas atrás. Comeram juntos e trocaram lembranças e sedas. Amyr se disse impressionado com o conceito sustentável do Botanique, que se preocupa com o meio ambiente e tem 12 curadorias com foco brasileiro, na área de gastronomia, arquitetura, literatura e arte. Ricardo finalizou dizendo que imagina Amyr com 90 anos traçando a próxima viagem.

Foi do hotel, que tem partes em três cidades (Campos do Jordão, Santo Antônio do Pinhal e São Bento do Sapucaí), que o comboio seguiu rumo leste até chegar à marginal Tietê. Nessa mistura de estrada e cidade, Flávia Vitorino elogiou a eficiência do câmbio CVT, Joel citou a força do motor para ultrapassagens seguras e Amyr abusou do “piloto automático” nas boas esticadas do caminho.

Com muitos quilômetros pela frente, o trio acelerou sempre na velocidade máxima permitida. Foram apenas duas paradas. A primeira, para abastecer e almoçar. A segunda, foi o tal pitstop na Torre de Pedra, ápice do dia. Torre de Pedra é uma cidade minúscula. Tem menos de três mil habitantes, IDH elevado e, entre outros louros, é segura como uma cidade japonesa. Em 2018 registrou apenas dois furtos. E não se vê um homicídio lá há dez anos.

Para alcançar o melhor visual da torre, Amyr – sempre fora da curva – levou o WR-V até o cume de um morro onde, provavelmente, nunca um carro havia estado. Não havia indicação, não havia caminho, não havia sequer terra. Apenas mato e arbustos em uma subida tão ondulada como o cabo Horn – desculpem a comparação exagerada. Os três WR-V e as duas X-ADV não refugaram. Levaram a equipe para o cume, de onde o visual da torre de pedra, coitada, foi ofuscado por uma montanha piramidal emoldurada pelo céu em plena despedida do sol, a tal da luz perfeita.

E o cara que desandou a falar, como em toda boa viagem on the road, foi Amyr Klink. É uma história melhor que a outra. Não apenas sobre as epopeias  marítimas, mas também das sagas cotidianas, como quando ajudou a vender a casa da atriz Maria Della Costa em Paraty, ou quando  quase decepou a mão ao tentar podar uma seringueira, ou quando precisou pular do helicóptero direto no mar, ou quando participou da compra de um dirigível.... Em meio aos causos de Amyr, que fez questão de dirigir do começo ao fim da etapa, já na escuridão da Raposo Tavares,

foi só acelerar até Presidente Epitácio e estacionar na pousada Cururu, que, a propósito, fica na beira do rio, no caso o Paraná.