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O sempre difícil começo - parte 2

O poder dos sonhos

As tradições, histórias e curiosidades da marca que mais entende de moto.

O sempre difícil começo - parte 2

O poder dos sonhos 12/07/2018

A menor das categorias, a 125cc, foi a escolhida para a estreia internacional da Honda.
O prazo curto antes do embarque para o Brasil exigiu improvisar e do modelo Dream E-Type, de produção padrão, a primeira Honda com motor 4 tempos, – veio justamente o monocilindro OHV de 150cc que, para atender o regulamento, teve sua capacidade cúbica reduzida a 125cc com a diminuição do curso do virabrequim.

Já o chassi precisou ser criado do zero, pois a estrutura da Dream E-Type, feita de chapa estampada, pesava demais. A solução foi construir um inédito chassi tubular de aço e equipá-lo com suspensão dianteira tipo paralelogramo. Suspensão traseira? Tipo "rabo duro", ou seja, sem suspensão mesmo.

Esta primeira Honda de competição mais parecia um modelo de corridas de "speedway", as pistas ovais de terra batida populares no Japão naquela época. Guidão alto e largo, rodas grandes e posição de pilotagem ereta escancaravam a realidade do Japão daquele tempo, onde fora dos circuitos ovais as corridas aconteciam em ruas e estradas sem pavimentação. 

O escolhido para pilotar a R125, a 1ª "Racing" da história da marca, foi um jovem funcionário da Honda, Mikio Omura. Aos 20 anos, ele trabalhava na empresa desde os 16, onde iniciara na linha de montagem. A vaga de piloto de testes foi conseguida quando Mikio ousou, "surrupiando" uma moto do galpão da empresa e se inscrevendo em uma corrida. Quis o destino que Soichiro Honda em pessoa estivesse entre os espectadores e Omura, vencedor da prova, em vez de ser demitido foi promovido.

Para vir ao Brasil junto com Mikio, foi escolhido como mecânico outro funcionário muito jovem, o engenheiro Toshiji Baba, de 24 anos. Assim como Omura, ele jamais havia pisado fora do Japão. O grupo estaria completo com um 3º elemento, o piloto Katsuhiro Tashiro, da marca Meguro, também convidada para o Grande Prêmio IV Centenário, só que na categoria 250. 

Os preparativos para esta 1ª expedição de motos e pilotos japoneses ao exterior estavam quase finalizados, quando a Federação de Motociclismo japonesa, através da qual o convite brasileiro havia sido feito, foi alertada de um grande inconveniente: o prazo de inscrições havia expirado antes da chegada da confirmação da presença dos japoneses. Com isso, o pagamento das despesas de viagem e estadia não estava mais disponível.

Naquele instante a missão quase foi abortada, mas a salvação veio de uma promessa dos paulistanos, que lembraram que o prêmio de largada era bem razoável. Isso estimulou a Honda e a Meguro a dividirem a despesa de 800 mil ienes (cifra equivalente a 22 mil dólares atuais) para bancar a ida ao Brasil, já que a volta estaria garantida. 

Para economizar no frete aéreo, em vez de despachar as motos como carga, elas foram desmontadas e declaradas como bagagem pessoal do trio, e em 13 de janeiro de 1954, uma quarta-feira, a maratona de voos começou no aeroporto de Haneda, em Tóquio. 

A viagem do Japão ao Brasil naquela época durava seis longos dias, um trajeto pleno de escalas devido à pequena autonomia e baixa velocidade dos aviões movidos por hélices. Antes da partida, Mikio Omura e Toshiji Baba foram à casa de Soichiro Honda para despedirem-se do chefão e ouvir a preleção. "Não pensem em vitória, mas terminem a corrida custe o que custar". 

Muitos anos depois, Omura revelou que jamais havia pensado em vitória e que mesmo terminar a corrida lhe pareceu, à época, uma missão pretensiosa demais. No próximo capítulo, a chegada à São Paulo, a surpreendente recepção da colônia japonesa e a antevéspera da estreia da Honda no mundo das competições internacionais.