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Técnicas de pilotagem na MotoGP

Na Competição

Seja no asfalto, na terra, na lama ou na areia, a competição e o universo radical estão no DNA da Honda.

Técnicas de pilotagem na MotoGP

Na Competição 13/05/2020

A pilotagem de motocicletas em pista é uma arte cheia de pequenos segredos, que evoluem conforme a tecnologia aplicada às motos avança. Talvez a mais antiga e manjadas delas é o pêndulo, que consiste em deslocar o corpo para fora do eixo da moto, em direção à parte interna da curva. O objetivo é reduzir a inclinação para obter melhor tração/aderência dos pneus, além de baixar o centro de gravidade, levando o corpo o mais próximo possível do solo. Com o pêndulo, a velocidade de contorno da curva foi progressivamente aumentando, dando aos pilotos condições de explorar a evolução global das motos.  

Há cerca de cinquenta anos os pilotos do Mundial de Motovelocidade começaram também a encostar o joelho no asfalto. Para quem assistia as corridas de então, aquilo pareceu ser a busca de um ponto de apoio além dos dois pneus. Na verdade, a técnica surgiu mais para regular a inclinação da moto do que efetivamente usar o joelho como escora, já que salvar um tombo com o joelho depende tanto de sorte quanto de muita habilidade.

Falando nisso, chegamos a Marc Márquez, a quem não falta tanto uma como outra coisa quanto outra. Piloto nº 1 da MotoGP, o seis vezes campeão da categoria chama a atenção inclusive pelas “salvadas”, situações nas quais conserta derrapagens extremas usando o joelho, o corpo todo e, claro, a sorte que todo campeão deve ter. Salvadas à parte, a Márquez se atribui o aperfeiçoamento de uma nova técnica de pilotagem apelidada de “Elbow-Down”, literalmente “cotovelo baixo”. Se nos anos 70 as motos da categoria máxima do motociclismo permitiam inclinações para raspar joelhos, as atuais são para cotovelos, algo que só é possível graças à tremenda evolução do trio chassi-suspensões-pneus.

A técnica do espanhol consiste em praticamente sair de sua Honda RC-213V na entrada das curvas, levando ao extremo o pêndulo – cuja função é sempre a de retardar o ângulo de inclinação, aproveitando a máxima área de contato dos pneus com o asfalto durante a frenagem. Como ele inovou? Pela agressividade na qual “desce” sua Honda até o ângulo de inclinação máxima no centro da curva – de até 64º! – momento em que não só o joelho mas também o cotovelo estão em pleno contato com asfalto.

Quando isso acontece, segundo o próprio Márquez, ele inclina um pouquinho mais, usando o toque do cotovelo com o solo como um “aviso”. O efeito é o de contornar a curva mais rapidamente, e preparar a fase seguinte, a saída de curva. De novo Márquez  usa agressividade – e genial habilidade – para controlar sua Honda. Nenhum outro consegue fazer tal manobra de modo tão abrupto e, ao mesmo tempo, tão eficaz. Manter o corpo projetado para fora da moto em plena aceleração, despejando mais de 250 cv de potência no asfalto através do pneu traseiro, cuja área de contato é algo do tamanho de um cartão de crédito... Definitivamente não é para qualquer um!

Outra coreográfica técnica da MotoGP consiste em deixar a moto escorregar de lado nas frenagens de certos tipos de curva, geralmente as que sucedem longas retas, o que tanto resulta na redução do espaço da frenagem (por conta do aumento do arrasto aerodinâmico, inclusive) como para direcionar a moto ao ponto de tangência. Por vezes, nesta delicada fase da pilotagem em pista, aparece outro “malabarismo” introduzido pelo arquirrival  de Márquez, o italiano Valentino Rossi. Chamada de “Doctor Dangle”, ou “MotoGP Leg Dangle”, tal técnica se resume em levar a perna interna à curva para a frente, coisa que muitos pensam ser só uma prevenção contra uma eventual perda de aderência nesta fase crítica, mas que tem bem outras funções.

A brutal evolução de freios e pneus na categoria MotoGP fez Rossi descobrir, em 2005, – segundo ele instintivamente – que levando a perna à frente, a frenagem (e consequente entrada em curva) resultava mais eficaz, coisa que foi comprovada pela sofisticada telemetria instalada nas motos e pela imediata assimilação da técnica pela maioria dos pilotos.

A “Leg Dangle” ocorre no momento da em que o freio dianteiro é apertado com força e acontece a enorme transferência de peso para a parte dianteira da moto, o que faz a roda traseira praticamente (ou literalmente, em certas situações) perder contato com o solo. Neste momento, ao tirar o pé da pedaleira interna à curva e movê-lo à frente, o piloto consegue vários benefícios: baixa o centro de gravidade melhorando a estabilidade,

aumenta o arrasto aerodinâmico, que ajuda a reduzir o espaço de frenagem e também direciona a moto para a entrada de curva, permite aumentar a pressão do corpo no banco, do joelho contra o tanque e também na pedaleira do lado externo à curva e, por fim, resulta em um mínimo momento de conforto para os pilotos, que esticam uma das pernas ao menos por um instante.

Obviamente todos estes benefícios são pequenos e oferecem uma vantagem mínima, quase marginal no temo de volta, mas que resultam relevantes em um mundo no qual milésimos de segundo contam, e não podem ser desperdiçados. É claro que as técnicas descritas acima são apenas uma pequena parte do repertório da evoluída técnica de pilotagem usada na MotoGP atual pelos mais talentosos pilotos do planeta. Tentar o “Doctor Dangle” de Rossi assim como reproduzir o radicalismo do “Elbow-Down” de Márquez em um track day, por exemplo, não faz sentido. A questão não é menosprezo ao talento alheio, mas sim a efetividade deste tipo de técnica, que exige a tecnologia exclusiva dos freios, pneus e chassi de motos como a campeoníssima Honda RC 213V.